28.11.07

Advogados, clientes e pagantes

Vamos imaginar que um modesto cidadão está num quarto com um leão, um tigre, um advogado, uma pistola e duas balas. Contra quem é que dispara, primeiro? A resposta é óbvia: contra o advogado, duas vezes. De facto, má-fama é algo que os pobres dos advogados têm, entre o povo. Injustificada, claro. Toda a gente sabe que os advogados são uns beneméritos, que atendem o cidadão comum e que não lhes tiram couro e cabelo, por dá cá aquela palha. No caso Madeleine McCann, duas das figuras de maior relevo na hierarquia da Ordem dos Advogados aceitaram fazer parte da equipa de causídicos contratada para defender (?) o casal McCann. O pobre do bastonário, numa declaração algo simplória (na minha humilde opinião...), disse ao Diário de Notícias que aceitou o caso (?) porque “há motivos” para defender o casal e quer, para já, “destruir a ideia absurda das rivalidades entre polícias, advogados ou países”. Para o bastonário, o importante é “descobrir o que aconteceu, repor a justiça e, claro, se possível, descobrir a criança, que é o que os pais querem”.

Já agora, Dr. Rogério Alves, podia responder a meia-dúzia de questões que, estou convicto, muitos portugueses colocaram, quando viram Va. Exa. aceitar a defesa de um casal que considera os polícias portugueses “imbecis”, e que patrocina investigações privadas? Eu sei que Va. Exa., como qualquer advogado que se preza, só defende clientes de cuja inocência esteja convicto. E digo isto porque, até hoje, nunca ouvi um causídico afirmar, antes de um julgamento, que teria dúvidas sobre a inocência do seu cliente (talvez porque, nesse caso, perderia imediatamente o cliente, que optaria por outro advogado menos sincero ou mais hipócrita, consoante a opinião…)

Va. Exa., mui ilustre bastonário da Ordem dos Advogados é pago por quem? Pelo casal McCann? Pelo fundo FindMadeleine? Pelo sr. Brian Kennedy? Está autorizado a revelar publicamente quem lhe paga e quanto lhe paga essa entidade? Ou está expressamente impedido de revelar publicamente qualquer pormenor sobre a sua relação contratual com essa entidade do “universo” McCann? Concorda com o porta-voz dos seus clientes, quando este afirma que a sua (deles, McCann…) constituição como arguidos foi um “travesti” de Justiça? Concorda com o porta-voz dos seus clientes, quando ele afirma que a Justiça portuguesa cometeu “um crime odioso” quando decidiu que Gerry e Kate fossem constituídos arguidos? Concorda com os seus clientes e familiares deles quando acusam a Polícia Judiciária de os estar a incriminar falsamente e colocar provas forjadas em locais específicos, com esse objectivo?

Aproveitando a oportunidade, deixo aqui um pedido para o senhor que preside à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados e que também aceitou defender os McCann: é capaz de responder às mesmas questões que coloquei ao Sr. bastonário? E mais uma, apenas para si, especificamente: a Imprensa inglesa diz que o Sr. Dr. Pinto de Abreu foi o intermediário, numa oferta de acordo, para que Kate McCann confessasse um crime menor e tivesse a sentença reduzida – a chamada “plea bargain”, que é crime em Portugal. Importa-se de desmentir, alto e bom som? Eu sei que Va. Exa. já desmentiu essa patranha, em declarações a uma rádio do Algarve. Mas isso foi há meses e, agora, a Imprensa britânica voltou a falar nessa história. Para terminar: Va. Exa continua a achar que a Comunicação Social portuguesa “embarcou” numa campanha contra os McCann, usando todo o tipo de rumores e comentários malévolos, única e exclusivamente com o objectivo de vender mais publicidade na TV e nos jornais?

Gostaria ainda de lembrar ao ilustre causídico que preside à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados que o Sr. Acusou, em Outubro passado, a Polícia Judiciária de estar a tentar criar “um cenário virtual para que bodes expiatórios possam aparecer” – isto, como escreveu o Observatório do Algarve, no âmbito de “investigações mal conduzidas.” Tendo eu boa memória (e arquivos bem organizados…) deixe-me dizer-lhe que acho uma manifestação de hipocrisia da sua parte, afirmar agora que “sobre o processo (do caso McCann) nunca nenhum jornalista me vai ouvir fazer um comentário”, como se pode ler na entrevista que deu ao Diário de Notícias, em 26 de Outubro – desta vez, acusando a Polícia Judiciária de ter agido “de forma tardia”, no caso McCann (ou seja, desmentindo-se a si próprio, duas linhas abaixo. Só lhe falta uma nega para ser igual a S.Pedro, nessa matéria…)

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